Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 18


A aventura dos odres de vinho

 

— Coitado! — exclamou Narizinho nesse ponto. — Cada vez fico mais penalizada da loucura do pobre Dom Quixote. Um homem tão bom, de tão nobre sentimento, a servir de peteca a esses bobos todos. Até o vigário! Por que esse padre não ficou lá na aldeia dizendo missas? Que tinha de meter-se com a vida do fidalgo?

— Você está sendo injusta, minha filha. O padre e o barbeiro eram amigos de Dom Quixote, que tudo faziam para vê-lo de novo em casa. Ora, o meio de conseguir isso só podia ser esse: enganarem-no. Do contrário, só levando-o à força, coisa muito pior.

— O que admiro — disse Pedrinho — é Sancho não desconfiar da comédia.

— Ele às vezes desconfiava, mas eram tantas a enganá-lo que o pobre gorducho acabava cocando a cabeça na dúvida.

— E depois, Dona Benta? — perguntou Emília. — Que aconteceu depois?

— Depois? Depois partiram todos. O pobre Sancho teve de seguir a pé, esbaforido, suando e suspirando de saudades do antigo burrinho. Mas consolava-se com a ideia de muito breve estar seu amo imperador de Micomicon e ele na posse da sonhada ilha. Só não estava gostando de serem negros como carvão os seus futuros vassalos; mas uma ideia súbita lhe fez brilhar os olhos: "Tanto melhor! Renderão dinheiro. Mandarei vendê-los em Espanha a cinquenta moedas cada um: e vai ser um rio de ouro. Que pepineira!"

"O vigário ficara a espiar de longe, escondido numa moita. De repente, apareceu, fingindo grande surpresa de ver ali Dom Quixote.

"— Oh! Se não me engano é o valentíssimo compatriota, o invencível Dom Quixote de Ia Mancha, cujas aventuras assombram o mundo!

"Surpreso também do encontro, o herói da Mancha saudou o vigário e quis ceder-lhe o cavalo. O religioso agradeceu e montou no animal do barbeiro, que apeara e lá seguiu par a par do cavaleiro andante, que se entretinha em conversar com o príncipe.

"— Conte-me, príncipe, os seus infortúnios.

"O falso etíope espirrou, escarrou, tossiu e disse:

"— Senhor, eu me chamo Micomicônio, e meu pai, monarca do império de Micomicon, se chama Trinácrio, ó Sábio, por ser habilíssimo nas artes mágicas. Graças a essas artes pôde adivinhar que a Rainha Xamarila, minha adorada mãe, ia morrer antes dele e também adivinhou que sua própria vida estava chegando ao fim. Isso apenas o entristeceu; não o abalou; eram coisas naturais. O que o abalou tremendamente foi saber que o seu império seria invadido por um horrendo gigante, rei da vizinha ilha de Pandafila: o Rei Zanaga. E que eu, já então no trono, seria expulso dos meus domínios se não me casasse com a filha do monstro. Meu pai tinha a certeza de que eu jamais me casaria com semelhante criatura, e portanto me aconselhou que viesse à Espanha em busca do poderoso cavaleiro andante Dom Chicot, Dom Gigot ou Dom Quixote, ele não sabia o nome ao certo. Explicou-me que era um cavaleiro alto, magro, com um sinal negro nas costas.

"— Sancho! Sancho! — bradou o herói da Mancha. — Despe-me já, Sancho, para que o príncipe veja minha marca.

"— Não é preciso — observou o escudeiro. — Eu juro a existência dessa marca e o príncipe acredita.

"— Acredito, sim — disse o príncipe. — Não tenho a menor dúvida de achar-me diante do herói que meu pai indicou como único homem no mundo que poderá destruir o usurpador do nosso império. Esqueci-me de declarar a Vossa Senhoria que meu pai, o Imperador Trinácrio, deixou um papel ordenando que o reino fosse entregue a esse cavaleiro, logo que haja destruído o usurpador. Fiquei incumbido de realizar essa ordem entregando a Vossa Senhoria a coroa e o cetro imperiais.

"— Não te dizia eu, Sancho? — exclamou Dom Quixote, voltando-se para o escudeiro. — Não te dizia que íamos ter reinos, impérios e ilhas a rodo?

"— Assim é, senhor — respondeu Sancho, contentíssimo do reino que se aproximava. — Só desejo que Vossa Senhoria abra ao meio esse Rei Zanaga — e quanto antes melhor. Estou a arder pela ilha que ele possui. Viva! Viva! — E Sancho deu pinotes de alegria, bateu palmas, beijou a mão do príncipe.

"— Eis, senhores — continuou o príncipe —, a breve história das minhas desgraças. Na viagem para cá, um naufrágio roubou-me o meu brilhante seguidor e as riquezas e presentes que trazíamos. Só escapamos, sobre umas tábuas, eu e este escudeiro barbadão.

"— Coragem, príncipe! — exclamou Dom Quixote. — As desgraças de Vossa Alteza acabarão muito em breve. Prometo não me separar de Vossa Alteza enquanto não cortar a cabeça ao pérfido Rei Zanaga.

"Nesse momento avistaram na curva da estrada um indivíduo montado num burro. Sancho reconheceu imediatamente o seu burrinho, furtado por Gines de Passamonte — era o próprio Passamonte que vinha montado.

"— Oh, velhaco! Oh, ladrão! — grita-lhe Sancho. — Larga já do meu burro, patife!

"Vendo Sancho em boa companhia, Gines pulou do burrinho e fugiu para o mato. Sancho voou ao encontro do asno, que abraçou e beijou.

"— Até que enfim te encontro, ó meu bem-amado burrinho, meu companheiro, meu filho querido!

"O jumento deixou-se abraçar e beijar sem dizer nada. Todos exultaram com o acontecimento e Dom Quixote declarou que, apesar de ter Sancho reconquistado o burrinho, continuava com direito aos três que lhe dera. Nunca Sancho se achou tão feliz.

"À beira dum límpido riacho, o grupo se deteve para uma breve refeição com coisas trazidas da estalagem. Estavam a manducar as gulodices quando um meninote se aproximou.

"— Bons dias, meu senhor — disse ele. — Não está reconhecendo em mim aquele André atado a um carvalho, que levou uma tremenda surra?

"Dom Quixote tomou-o pela mão e apresentou-o aos outros, dizendo:

"— Eis, senhores, um vivo exemplo da utilidade da cavalaria andante. Dias atrás, cruzando certo campo, ouvi lastimosos gritos, e logo depois dei com este menino a ser surrado por um bruto que não lhe queria pagar os salários. Ordenei-lhe que o soltasse incontinenti e que tudo pagasse até o último vintém, o que me foi prometido sob juramento. Não foi assim, André?

"— Sem tirar nem pôr — respondeu o menino. — Mas assim que Vossa Senhoria se afastou... — Já sei, recebes te ali mesmo a paga dos salários vencidos, não é?

"— Sim, meu senhor, recebi a paga, não em moeda. Recebi-a em lapadas, e tantas que fiquei com as costas em sangue. Se não fosse a sua intervenção, meu senhor, eu teria ficado na primeira sova. Mas por causa da intervenção recebi duas — a segunda muito pior que a primeira. E nada do salário. O malvado vingou-se de Vossa Senhoria no meu lombo.

"— Já, já, Sancho! — gritou Dom Quixote colérico. — Enfreia Rocinante que quero ir castigar o celerado de modo que espante as gerações vindouras.

"— Ora, deixe-se disso — exclamou o rapazinho. — Prefiro que me dê alguma coisa para eu continuar minha viagem.

"— Toma lá — disse Sancho — esta bucha de pão e esta lasca de queijo. Nós, escudeiros dos cavaleiros andantes, nunca temos nada de dar, de modo que é sorte tua teres pilhado isto.

"Vendo que não vinha mais nada, o menino deitou a correr, gritando:

"— Mil raios partam os cavaleiros andantes que só servem para dobrar as sovas dos malvados!...

"Dom Quixote magoou-se grandemente com aquilo. Concluída a refeição, montaram e despejaram léguas. Chegaram por fim à estalagem da surrarada. O estalajadeiro, sua mulher e a Maritornes saíram ao encontro do Cavaleiro da Triste Figura, o qual os reconheceu e pediu que lhe dessem melhor cama que da última vez. E ao ver-se na cama Dom Quixote, exausto da penitência e da caminheira, dormiu imediatamente. Os outros então combinaram que fazer. Mestre Nicolau tirou a barba postiça, pedindo que, quando Dom Quixote acordasse e desse pela falta do escudeiro barbudo, todos o informassem de que fora mandado a Micomicon para anunciar o feliz encontro do herói da Mancha.

"O estalajadeiro estava a arrumar a mesa para a ceia quando Sancho desceu a escada aos trambolhões, berrando qual possesso:

"— Acudam! Acudam! Meu amo está a acutilar o gigante!

"— Que loucura é essa, Sancho? — brada o padre — O gigante está a mil léguas daqui.

"Soa lá de cima a voz de Dom Quixote:

"— Ladrão! Assassino! Desta vez não escaparás. Nada valem contra mim tua força e tua cimitarra!

"— Estão ouvindo? — diz Sancho. — Eu vi o gigante! Vi jorrar sangue da sua cabeça enorme! Vi escorrer sangue vermelho como vinho.

"— Upa! — exclamou o estalajadeiro com uma ideia súbita. — Querem ver que esse raio de homem está a me abrir lá em cima os odres de vinho, pensando serem gigantes? — e subiu as escadas a galope, seguido de todos.

"Dom Quixote, em fraldas de camisa, barrete de dormir na cabeça, manta enrolada no braço esquerdo, feria com a espada os pobres odres de couro, alagando o quarto com ondas de vinho vermelho. A fúria do estalajadeiro foi tamanha que se não o agarram era capaz de destruir Dom Quixote. Enquanto isso, Sancho farejava pelos recantos em procura da cabeça do gigante.

"— Maldita estalagem! — ia dizendo. — Está enfeitiçada. Eu vi a cabeça do gigante rolar por terra e agora só encontro odres furados...

"Dom Quixote, que fizera aquilo em sonho, acordou e arregalou os olhos.

"— Príncipe — disse ele, voltando-se para Cardênio —, foi-se o tirano. Meu fortíssimo braço o fez morder o pó.

"Sancho sorriu, reanimado.

"— Estão vendo? Meu amo já arrasou com o patife e eu serei rei da ilha dos negrinhos.

"Os outros presentes não resistiram por mais tempo. A gargalhada foi geral, exceto da parte do estalajadeiro, que não achou graça nenhuma em ver tanto vinho perdido. Também sua esposa e a Maritornes mostravam cara feia. Mas o vigário prometeu acomodar tudo. Pagaria o vinho entornado. E Cardênio daria a Sancho a ilha do gigante morto. Tudo ótimo. Dom Quixote embainhou a espada e voltou para a cama. Minutos depois adormecia."

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