Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 19


O que aconteceu na estalagem

 

— Que história de odre é essa, vovó? — perguntou Narizinho.

— Odre era um saco de couro de cabra em que na Europa antigamente se guardava o vinho. Hoje não é mais usado. O vinho é guardado em pipas, barris e garrafas.

— Ah! — exclamou Emília. — Talvez seja por isso que o povo diz "bêbado como uma cabra".

— Pode ser, não sei. O que sei é que cabra não bebe. A origem das velhas expressões populares é sempre muito confusa, e não me admirarei que a explicação de Emília seja adotada por algum filólogo, que são os homens que estudam essas coisas.

— Chega de Emília, vovó — disse Narizinho enciumada. — Continue.

Emília guardou a língua e Dona Benta continuou.

— Logo depois — disse ela — entraram na estalagem três amigos de Cardênio, que vinham para a ceia. Sancho foi buscar Dom Quixote. Cearam com vontade. A sobremesa foi um discurso do cavaleiro da Mancha sobre os prodígios da cavalaria andante. Terminado o discurso, todos se recolheram. Só Dom Quixote ficou velando. Foi ao pátio, arreou e montou no magro Rocinante. De escudo ao braço e lança em punho, ia pôr-se de guarda a hospedaria para que os encantadores e gigantes não viessem perturbar o sono do príncipe e dos demais.

"Vendo aquilo, a Maritornes teve uma ideia malandra. No fundo da casa havia uma janelinha no alto. Para lá foi ela e de repente apareceu muito aflita, estorcendo as mãos, com os olhos no céu. Acenava para o cavaleiro em gestos desesperados, como a pedir-lhe que a socorresse.

"Dom Quixote imediatamente viu na esfregona uma linda cativa que apelava para a cavalaria andante. Aproximou-se da janelinha. Ficou de pé no selim e alongou os braços para a desditosa castelã prisioneira. A perversa criatura, porém, laçou-lhe as mãos com uma correia, que atou a um ferrolho — e fugiu dali a rir-se doidamente.

"Sentindo-se preso, Dom Quixote gritou por Sancho. Nada. Sancho roncava no mais profundo sono de sua vida. Dom Quixote então pôs-se aos berros, naquela trágica posição, imobilizado, com as mãos para cima, sobre o magro Rocinante impassível. "Estou encantado per secula seculorum", refletiu lá consigo, certo de que novamente fora vítima de algum mágico. E assim passou a noite.

"Ao romper da manhã, quatro homens montados detiveram-se à porta da hospedaria e bateram.

"— Cavaleiros ou escudeiros — gritou-lhes Dom Quixote —, ignorais por acaso que as portas deste castelo só se abrem ao nascer do sol? Retirai-vos e esperai que clareie o dia e o castelão vos admita.

"— Que raio do diabo de castelo e castelão está o estafermo a falar? — exclamou um dos homens, espantado de ver aquele espeque humano, de pé sobre uma carcaça de cavalo e de mãos para o ar. — Uma reles tasca destas transformada em castelo! Vê-se cada uma nesta vida... Desce daí e vem abrir-nos a porta, que é o melhor.

"— Insolente! — berrou Dom Quixote. — Achas-me com cara de taverneiro?

"Os homens riram-se e continuaram a malhar na porta. O estalajadeiro veio abrir, bocejando. Os homens saudaram-no a altos gritos. Rocinante assustou-se com a barulheira e escapou dali, deixando o seu dono dependurado pelas munhecas atadas. A dor fez Dom Quixote desferir um urro tremendo. Acode o estalajadeiro, enquanto a travessa Maritornes voa à janela e desata a correia, deixando que o herói da Mancha se esborrache no chão. Mas Dom Quixote ergueu-se incontinenti e pulou para cima do cavalo. E, sacudindo no ar a lança, bradou com voz terrível:

"— Se alguém ousar dizer que mereci o encanto de que fui vítima esta noite, considere-se desde já desafiado — se o Príncipe Micomicônio o permitir.

"Os viajantes abriram a boca. Não estavam compreendendo coisa nenhuma. Foi preciso que Cardênio, em rápidas palavras, lhes explicasse a loucura de Dom Quixote. Eles, então, depois de muitas risadas, propuseram-se a tomar parte na comédia do príncipe etíope, e Cardênio os apresentou ao herói da Mancha como pessoas de sua comitiva que também se haviam salvo do naufrágio. Dom Quixote os saudou com solenidade e pediu ao príncipe que apressasse a partida, visto que estava cada vez mais ansioso por atracar-se com o gigante Zanaga.

"A marcha continuou. O padre, porém, ia apreensivo. Se Dom Quixote percebesse que estava sendo conduzido para casa, certamente se revoltaria e lá se estragaria todo o plano. Teve uma ideia. Mandou construir uma grande gaiola gradeada onde um homem pudesse ficar à vontade, e arranjou um carro de bois. Pronto o gaiolão, Cardênio e os demais companheiros disfarçaram-se em fantasmas e de noite assaltaram Dom Quixote durante o sono. Amarraram-no e meteram-no na gaiola.

"Ao ver-se tratado daquela maneira, Dom Quixote convenceu-se de que realmente fora vítima dos terríveis mágicos, e mais ainda quando o barbeiro, mudando a voz, lhe disse:

"— Ó valentíssimo Cavaleiro da Triste Figura, honra e glória do mundo! Não te aflijas do teu inesperado cativeiro. Assim que fores posto em liberdade, poderás dar começo à aventura contra o gigante que persegue o império de Micomicon.

"E voltando-se para Sancho:

"— E tu, ó, o mais nobre e leal dos escudeiros, consola-te de ver engaiolada a flor da cavalaria andante. Breve também subirás ao ápice da grandeza. Dá crédito às minhas falas. Segue em paz o grande herói cativo e não te inquietes. Os dias de glória estão próximos. Adeus.

"Sossegado por aquela voz oracular, Dom Quixote respondeu, suspirando:

"— Quem quer que sejas tu, ó duende que tomas a peito a minha sorte, não me deixes por muitos dias languescer neste vergonhoso cárcere. Tudo sofrerei sem uma queixa, contanto que esta provação me abra o caminho da glória. Quanto ao meu fiel escudeiro, se o destino me impossibilitar de oferecer-lhe a prometida ilha, ou um reino, minha gratidão e meu testamento o farão feliz.

"Sancho agradeceu a bondade do seu amo, sem nem por sombras desconfiar da peça de que ambos estavam sendo vítimas. Os duendes tomaram a gaiola e a arrumaram na carreta. Cardênio dispôs sobre Rocinante o escudo do herói e a bacia de barbeiro que era o elmo de Mambrino. Sancho montou no seu jumento. A mulher do estalajadeiro e a Maritornes vieram despedir-se, com fingida tristeza, do valente herói da Mancha. Dom Quixote consolou-as, dizendo que jamais esqueceria a ótima recepção que delas recebera."

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