
Escrita por Monteiro Lobato
— Sim, senhora! Boa bisca era a tal Maritornes — observou Narizinho. — Para mim não há gente pior que a que se diverte à custa dos pobres loucos.
— Também penso assim, minha filha — disse Dona Benta; — e no entanto é essa a inclinação da humanidade. Repare naquela demente que anda solta na vila. Assim que sai para a rua dando aqueles gritos, junta-se a molecada atrás — e um dia até o Pedrinho se meteu entre eles, eu bem sei...
O menino defendeu-se.
— Mas não foi para ajudar, nem me rir dela, vovó. Acompanhei-a apenas para observar. A senhora mesma diz que é preciso a gente não perder nunca a menor ocasião de observar a vida. Eu estava observando a loucura.
— Bom, se foi assim, está direito, porque aquela pobre louca só merece compaixão. Ficou gira, sabem por quê? Por perder uma filhinha de cinco anos num desastre horrível.
— Lá vem vovó com coisas tristes! — protestou Narizinho. — Volte depressa para a gaiola de Dom Quixote, antes que eu chore.
Dona Benta continuou a história do engaiolado.
— Não era mais necessário o auxílio de Cardênio — disse ela — nem dos amigos de Cardênio. O cura e o barbeiro despediram-se deles, prometendo inteirá-los mais tarde do resto da comédia. O falso príncipe e sua comitiva montaram e partiram. Em seguida, pôs-se a caminho o curioso farrancho do herói engaiolado. À frente seguia o carreiro guiando os bois; lado a lado, dois quadrilheiros que o cura chamara para auxiliá-lo; depois, o barrigudo Sancho escanchado no burrinho e com a ilha a lhe ferver nos miolos; depois, Rocinante, puxado pela rédea; finalmente, o cura e o barbeiro. Dentro da gaiola via-se o grandíssimo cavaleiro da Mancha: sentado, cabisbaixo, mudo, imóvel como a estátua da resignação.
"Duas léguas caminharam assim até um vale de bom pasto, onde se detiveram para descanso dos animais. Sancho, que começava a desconfiar da comédia, aproximou-se do seu senhor e disse-lhe baixinho:
"— Meu amo, esses dois embuçados que nos seguem eu juro que são o padre e o barbeiro lá da nossa terrinha. Tudo isto está me cheirando a uma refinadíssima comédia.
"— Desconfia dos teus olhos, amigo Sancho — respondeu o herói. — Os mágicos encantadores tomam todas as formas. Provavelmente tomaram a forma do padre e do barbeiro para melhor nos iludirem.
"Sancho ficou pensativo. Depois:
"— Eu tinha vontade de fazer a Vossa Senhoria uma perguntinha, mas não ouso...
"— Ousa, ousa, meu filho. Que é?
"— É que. . . é que estou a matutar se Vossa Senhoria depois que foi encantado, não sentiu ainda uma certa necessidade...
"— Sim, sim, amigo Sancho. Sinto necessidade de ver-me fora desta prisão.
"— Não é disso que falo, meu senhor...
"— Então de que é?
"Sancho explicou-lhe que necessidade era.
"— Percebo — respondeu o herói. — Sinto-a, sim, e bastante, neste momento.
"Sancho deu uma risada gorda.
"— Apanhei-o! Vossa Senhoria não vive dizendo que os cavaleiros encantados não comem, não dormem, não bebem, não fazem coisa nenhuma que os outros homens fazem? Logo, se Vossa Senhoria sente a tal necessidade, então é que não está encantado.
"Dom Quixote ficou pensativo. Enquanto o amo e o escudeiro dialogavam, os animais comiam a verde relvinha, e o cura, o barbeiro e os quadrilheiros aliviavam os alforjes das comedorias. Sancho aproximou-se do cura e pediu-lhe licença para soltar Dom Quixote por uns instantes, a fim de que ele desse uma voltinha pelo mato. O vigário concedeu a licença com uma condição: que o herói prometesse sob palavra voltar à gaiola sem fazer nenhuma tentativa de fuga.
"— É boa! — exclamou o escudeiro. — Se Vossas Senhorias são mágicos, não vejo necessidade de tal promessa. Basta que façam um aceno com a varinha e quem tentar fugir ficará grudado ao chão, preso de raízes...
"O carreiro foi abrir a gaiola. Dom Quixote saiu, estirou os braços e foi dar umas palmadas no pescoço de Rocinante.
"— Meu querido cavalo, flor dos corcéis! Breve nos tornaremos a ver e continuaremos nosso glorioso rosário de aventuras.
"Em seguida, antes de dar a volta pelo mato, deteve-se junto ao grupo para um dedo de prosa. Nesse instante ouviu-se um toque de buzina. Dom Quixote aprumou-se, à escuta, pronto já para a peleja.
"Era uma procissão de penitentes que pediam chuva. Num andor vinha uma grande imagem de Nossa Senhora, que imediatamente Dom Quixote tomou como uma princesa a implorar socorro. E ei-lo que agarra da lança, do escudo, e salta sobre Rocinante, dizendo:
"— Notai, senhores, a utilidade da cavalaria andante. Reparai na infeliz princesa que os malandrins levam cativa. Quem a libertaria, se aqui não se achasse um cavaleiro andante?
"Disse e fincou as esporas no cavalo, lançando-se contra a procissão.
"— Espere! Espere! — gritaram o padre e o barbeiro, aflitíssimos.
"— É uma simples procissão de penitentes, senhor! É a imagem de Nossa Senhora e não princesa nenhuma!...
"Foi o mesmo que clamar no deserto. Dom Quixote já ia longe.
"— Vil canalha! — trovejava ele. — Libertai já essa infeliz princesa de ar triste que trazeis cativa.
"A resposta foi uma gargalhada geral. Dom Quixote enfureceu-se. Cobriu-se com o escudo e atacou. Mas um dos homens estava armado de porrete, com o qual lhe assenta tamanho golpe que o tonteia. Dom Quixote cai. Acodem Sancho, o padre, o barbeiro e explicam aos penitentes o caso do fidalgo da Mancha. E a procissão segue o seu caminho, enquanto o fiel escudeiro, debruçado sobre o amo imóvel, tudo faz para acordá-lo. Por fim, Dom Quixote abriu os olhos e suspirou.
"— Amigo — diz ele —, ajuda-me a subir ao carro encantado. A dor que sinto no lombo não me permite cavalgar o valente Rocinante.
"— Sim, meu senhor. Voltemos à nossa aldeia e fiquemos lá até que passe esse raio de encantamento, ou o que seja, que veio interromper nossas aventuras. Depois continuaremos — e havemos de operar prodígios.
"E o invencível Cavaleiro da Triste Figura foi novamente enfiado na gaiola. A marcha recomeçou. No fim do sexto dia chegaram ao destino. Era domingo. Os camponeses, vindos a compras na aldeia, reuniram-se em redor do carro do gaiolão. Seguiram em massa e foi assim que a caravana chegou à velha casa do fidalgo da Mancha.
"O barulho atraiu à porta a sobrinha e a ama de Dom Quixote. Ao darem com ele numa gaiola, deitado num monte de palha, magríssimo e extremamente pálido, rompem as duas em choro e gritos. A notícia da chegada dos dois heróis voou pela aldeia. A mulher de Sancho acudiu correndo. Abraçou-o, apalpou-o, como a ver se não lhe faltava pedaço nenhum, e perguntou logo pelo burrinho."
"— Está mais que bom — respondeu Sancho — apesar do que lhe aconteceu. Desta vez não trouxemos a ilha: mas a ilha virá na certa. Serei conde, duque, marquês, o diabo. Governador dum grande reino, vais ver. E por conta já podes ir recebendo este ourinho — concluiu ele, entregando à esposa o saco de moedas.
"Os olhos da boa mulher brilharam.
"— Oh, Sancho! Estou tão contente! Tudo isto só para começar? Então iremos longe. Uma ilha! Conde! Duque! Governador! Que beleza!
"— Se é! — exclama Sancho. — Mas custa um bocado. Antes de a gente apanhar essas coisas, é tunda e mais tunda, pau e mais pau. Além disso, uma trabalheira sem fim; ora a galgar montanhas cheias de pedras e espinhos, ora a trepar em rochas empinadíssimas; hoje a dormir ao relento; amanhã a pousar em castelo que vira albergue, e sempre uma tunda de pau no fim. A ilha vem, não há dúvida, mas as costelas vão ficando pelo caminho...
"Enquanto o casal dialogava neste tom, o vigário pagou o carreiro e deu uma gorjeta aos quadrilheiros, os quais se foram. Dom Quixote foi carregado ao seu quarto e posto em sua velha cama.
"— E cuidado, hein? — rematou o padre, dirigindo-se à ama e à sobrinha. — Não o deixem fugir. Olhem que me deu panças para botá-lo aqui. Cáspite!..."