Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 22


Aventura de Dom Quixote com Cavaleiro dos Espelhos

 

Quando Dona Benta chegou a esse ponto, parou e indagou da Emília.

— Onde anda o diabretinho? Emília desaparecera.

— Há de estar lá na cozinha atropelando Tia Nastácia — respondeu Narizinho. — Continue a história, vovó, enquanto a, atrapalhadeira não aparece.

Dona Benta continuou.

— A floresta marginal — disse ela — apresentava sombras convidativas; os dois heróis resolveram tirar uma soneca de descanso. Estavam no melhor dela quando, horas depois, um ruído súbito acorda Dom Quixote, o qual se senta e vê dois homens a cavalo que param perto. Um deles disse ao outro:

"— Tira os freios dos cavalos. Esta sombra está boa para um descanso.

"Em seguida deitou no chão as armas e fez o mesmo ao seu corpo cansado. O alvoroço de Dom Quixote foi grande ao ver que se achava à frente dum legítimo cavaleiro andante. Acordou Sancho e disse-lhe, baixinho:

"— Sancho, Sancho, desta vez temos aventura das boas.

"— Que realmente seja boa — respondeu o escudeiro, esfregando os olhos. — De más estou farto. Onde anda ela?

"— Não vês acolá aquele cavaleiro deitado?

"— Vejo, senhor, sim, mas que tem isso? Acha que um cavaleiro deitado seja aventura?

"— As aventuras começam assim, meu caro Sancho.

"E, voltando-se para o desconhecido, gritou-lhe a frase clássica:

"— Quem vive?

"— Amigo — respondeu o sujeito.

"Dom Quixote adiantou-se, acompanhado pelo fiel escudeiro.

"— Queira sentar-se aqui ao meu lado — disse o desconhecido.

"— Imagino que Vossa Senhoria é cavaleiro andante, pois está guarnecido de armadura e armas e jazia reclinado neste bosque, como faziam os heróis de outrora que se dedicavam à nossa alta profissão.

"— É verdade, senhor — respondeu Dom Quixote. — Tenho a honra de ser cavaleiro andante e passo a vida a socorrer os fracos e a vingar os oprimidos.

"— E a conquistar reinos e ilhas — acrescentou Sancho — para com eles e elas brindar o fiel servidor.

"— Quem está falando? — quis saber o desconhecido.

"— É o meu escudeiro Sancho Pança — respondeu Dom Quixote.

"— Escudeiro? E ousa intervir na conversa do seu amo? — observou o desconhecido. — Pois acolá tenho o meu, o qual, apesar de homem maduro, nunca se atreve a abrir a boca diante de mim.

"— Essa é boa! — exclamou Sancho. — Se não abre a boca, é que é mudo. Eu cá falo ao Senhor Dom Quixote sempre que me apraz e não tenho papas na língua.

"O escudeiro do desconhecido puxou Sancho pelo braço, murmurando-lhe:

"— Afastemo-nos daqui para conversarmos à vontade.   "Retiraram-se os dois para um canto da floresta.

"— Meu caro — disse o novo escudeiro —, nós levamos uma vida do inferno. Roemos pão duro, quando o há. Levamos pancadaria grossa. Suamos água e sangue.

"— Assim é — concordou Sancho. — E em lugar de bons vinhinhos, só bebemos água das fontes e arroios.

"— Isso mesmo. Mas esta noite não será assim. Tenho cá a minha borracha e este empadão. Toma um pedaço.

"— Oh, vinho e empada! — exclamou Sancho, arregalando os olhos. — Que banquete!

"Sancho mordeu a empada e a mastigá-la disse, com os olhos na borracha de vinho:

"— Permite-me Vossa Mercê que eu pespegue um beijinho nessa menina?

"— Com muito prazer — respondeu o outro passando-lhe a borracha.

"Sancho deitou-se, com a borracha na boca e os olhos no céu. Ficou uns instantes naquela posição, a mamar o delicioso vinho. Por fim, senta-se e estala a língua.

"— Este é legítimo de Ciudad Real, não?

"— Adivinhou! E velhinho.

"Entrementes, o cavaleiro desconhecido — que era o Cavaleiro dos Espelhos — declarava a Dom Quixote:

"— Sim, senhor. Os meus trabalhos e aventuras igualam-se aos trabalhos de Hércules. Já percorri grande parte da Espanha, vencendo uma infinidade de cavaleiros. Mas o meu maior feito foi a derrota infligida ao famoso Dom Quixote de Ia Mancha.

"— Dom Quixote de Ia Mancha, senhor? Vossa Senhoria engana-se. Dom Quixote de la Mancha está aqui. O que Vossa Senhoria venceu era falso.

"— Falso ou verdadeiro — replicou o dos Espelhos — o certo é que o venci. E tenho dito.

"— Mente! — bradou o herói da Mancha. — Erga-se e tome a lança.

"— Esperemos que amanheça — respondeu o outro — e então combateremos, mas com uma condição: o vencido obedecerá ao vencedor em tudo que não colidir com as regras da cavalaria andante. Aceita?

"— Aceito — respondeu Dom Quixote.

"Os dois campeões foram prevenir os respectivos escudeiros para que tudo aprontassem ao surgir do sol. Só quando a manhã rompeu, pôde Sancho reparar na cara do seu amigo escudeiro, e assombrou-se do enorme nariz que ele tinha. Do seu lado, Dom Quixote observou o seu adversário, já com o rosto oculto pela viseira. Tinha a estatura mediana, se bem que retaco e forte.

"Aproximam-se os cavalos arreados. Os dois contendores montam. Sancho, assustadíssimo com o tremendo nariz do escudeiro colega, sussurra para seu amo:

"— Senhor Dom Quixote, estou com medo daquela penca. Vou ficar de longe, encarapitado numa árvore.

"— Queres ver touros de palanque, é isso — murmurou o cavaleiro.

"Disse e cravou as esporas no magro Rocinante, que saiu no galope. O Cavaleiro dos Espelhos fez o mesmo. Mas ao dar a esporada, o seu corcel empinou e o jogou ao chão. Vendo aquilo Dom Quixote volta. Sancho desce da árvore. Vão os dois acudir ao cavaleiro desastrado. Tiram-lhe o elmo e, oh, pasmo! Oh, assombro! Não era outro senão o bacharel Sansão Carrasco!...

"— Que te parece, amigo Sancho? — disse Dom Quixote. — A malícia dos encantadores é infinita. Transformaram o Cavaleiro dos Espelhos no nosso amigo Carrasco...

"— Hum! — exclamou Sancho. — Pelo sim, pelo não, acho que Vossa Senhoria deve cortar-lhe a cabeça.

"Dom Quixote gostou da ideia e já ia sacando da espada, quando o escudeiro do bacharel lhe caiu aos pés, bradando:

"— Suspenda, senhor! Suspenda! Olhe que vai matar o seu melhor amigo!...

"— Nada de enganação — gritou Sancho, e vendo que o enorme nariz desaparecera do rosto do outro: — Onde está o seu nariz?

"— Aqui — respondeu o escudeiro, mostrando um nariz de papelão.

"Nesse momento Sancho reconhece o homem.

"— Diabo! Não é o compadre Tomás Cecial?

"— Em corpo e alma, caro Sancho. Vou contar tudo. Vou contar por que motivo nos disfarçamos deste jeito.

"Mas Dom Quixote já estava com a ponta da espada no gasnete do cavaleiro.

"— Confesse, cavaleiro, que esse que venceu não era o autêntico Dom Quixote de Ia Mancha e sim algum parecido; como eu confesso que Vossa Senhoria não é o bacharel Carrasco e sim outro parecido.

"— Perfeitamente, senhor — respondeu o cavaleiro, estatelado. — Confesso tudo quanto Vossa Senhoria me ordenar.

"Dom Quixote meteu a espada na bainha e o escudeiro Tomás ajudou o bacharel a erguer-se e a montar em seu cavalo. Estavam ambos desapontadíssimos. Carrasco se havia disfarçado em cavaleiro andante por instigações e conselhos do padre, com a ideia de bater-se com Dom Quixote, vencê-lo e obrigá-lo a tornar à aldeia. Infelizmente aquele inopinado tombo estragou tudo, fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro.

"O herói da Mancha, que tudo atribuía a feitiços e mágica, tomou o rumo de Saragoça, muito satisfeito consigo, enquanto o bacharel Carrasco, furiosíssimo com a derrota, jurava a todos os deuses não tornar à aldeia antes de bater para sempre o ilustríssimo Dom Quixote de la Mancha.

"Meia légua dali Dom Quixote tem novo encontro — um homem montado em bonita égua, com um capote de veludo verde sobre os ombros e boné do mesmo pano. Num rico boldrié trazia um alfanje mourisco. Botas de verniz rebrilhante, esporas também verdes. Seu aspecto infundia confiança e respeito. O homem entreparou e saudou Dom Quixote, mostrando-se admirado do encontro de tão magra e alta criatura sobre aquele magríssimo cavalo.

"— Penso — disse o herói da Mancha — que Vossa Senhoria está a estranhar o ver-me armado desta maneira. Contarei do que se trata. Sou um cavaleiro andante que quer ressuscitar a nobre profissão e corre mundo a socorrer donzelas e a vingar agravos. Chamo-me Dom Quixote de Ia Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura.

"O gentil-homem baixou a cabeça ao ouvir nomear aquele exótico apelido.

"— Muito desejo — continuou o herói da Mancha — saber o seu nome e conhecer suas ocupações: se não sou indiscreto.

"— Sou Dom Diogo de Miranda — respondeu o fidalgo. — Resido numa aldeia perto daqui, onde espero que Vossa Senhoria me dê a honra de jantar comigo. Nasci razoavelmente rico. Acudo aos necessitados, arranjo a vida dos que a têm desarranjada; moro com minha mulher e filhos, e recreio-me na caça e na leitura dos bons livros.

"— Uma vida que muito vos honra, Dom Diogo — disse Dom Quixote."

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