Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

Página anterior

Capítulo 24


A barca encantada

Dom Quixote encontra o duque

 

Nesse ponto a narrativa foi atrapalhada pelo súbito aparecimento de Tia Nastácia.

— Sinhá — veio ela dizer —, Emília parece louca. Entrou na cozinha montada no Rabicó, toda cheia de armas pelo corpo, com uma lança e uma espada, e uma latinha na cabeça que diz que é o "ermo" de Mambrino, e começou a me espetar com a lança, gritando: "Miserável mágico! Por mais que te pintes de preto e ponhas saias, não me enganar ás! Pérfido! Infame encantador!" E uma porção de coisas assim, sem pé nem cabeça. E a diabinha me espetaria de verdade com a lança, se eu não jogasse no quintal umas cascas de abóbora. Rabicó foi voando para cima das cascas e levou consigo a louquinha. E o pobre Visconde atrás, sinhá — isso é o que dá mais dó! O pobre Visconde barrigudo, carregando uns saquinhos que ele diz que é alforje...

Dona Benta foi espiar pela janela e de fato viu as estripulias que a Emília dei Rabicó estava fazendo no quintal. Vestidinha de cavaleira andante, toda cheia de armaduras pelo corpo e de elmo na cabeça, avançava contra as galinhas e pintos com a lança em riste, fazendo a bicharada fugir num pavor, na maior gritaria. Até o galo, que era um carijó valente, correra a esconder-se dentro dum caixão.

Dona Benta gritou-lhe por várias vezes que acabasse com aquilo. Tudo inútil. A boneca fora tomada dum verdadeiro delírio de heroísmo.

— Não há remédio, vovó — disse Pedrinho —, temos de botar Emília numa gaiola, como o cura fez a Dom Quixote.

Todos aprovaram a lembrança.

— Faça isso, Nastácia — ordenou Dona Benta. — Agarre-a e ponha-a dentro da gaiola vazia do sabiá que morreu.

Tia Nastácia foi cumprir a ordem e dali a pouco reapareceu de gaiola em punho, com a cavaleira dentro. Emília esbravejou e espinoteou o mais que pôde. Por fim, cansada, sentou-se no poleiro, muito quietinha. Estava pensando no meio de fugir dali e vingar-se da cozinheira.

— Ufa! — exclamou Dona Benta. — Parece incrível que uma simples boneca de pano ponha a casa em polvorosa e nos dê tanto trabalho. Pendure-a aí nesse prego, Nastácia, e pode ir.

Tia Nastácia pendurou a gaiola no prego e voltou para a cozinha. Só então Dona Benta recomeçou a narrativa.

— Muito bem — disse ela com os olhos na gaiola. — Os nossos dois viajantes pernoitaram no bosque e na manhã seguinte encaminharam-se na direção do Ebro. Alcançando esse rio, avistaram uma barquinha sem velas, nem remos, amarrada a um tronco da margem. Dom. Quixote apeou-se.

"— Que pretende fazer, meu amo? — quis saber o escudeiro.

"— Entrar contigo neste esquife e entregar-nos a Deus e à aventura.

"Disse e entrou na barca, ficando à espera do escudeiro. Mas Sancho não tinha coragem. Estava a tremer como geleia.

"— Que é isso, homem covarde? — grita-lhe o cavaleiro. — Que te assusta desse modo? Eia, meu Pança! Coragem!...

"Sancho entrou e a barquinha partiu. Logo depois o cavaleiro disse:

" — Eis-nos engolfados no vastíssimo oceano! Se eu tivesse cá um astrolábio, te diria com certeza absoluta em que ponto estamos a navegar. Mas mesmo sem astrolábio te asseguro que já está passado o equador.

"— Como pode ser isso, meu amo, se ainda vejo acolá na margem do rio o meu burrinho e o cavalo de Vossa Senhoria?

"Dom Quixote não teve tempo de responder. A barquinha chocara-se de encontro a uma roda de moinho, despedaçando-se. Ambos se salvaram a nado. Nesse momento surgiu o dono da barca aos berros, exigindo o pagamento do prejuízo.

"— Sempre os malditos encantadores! — exclamou Dom Quixote.

"— Sempre a me atrapalharem os planos! Ó desventurado cavaleiro que jazes nessa fortaleza, perdoa-me se não te libertei. Quis e não pude.

"A fortaleza era o moinho em cuja roda se quebrara a barquinha. Os donos da barquinha exigiram cinquenta moedas de indenização, que Dom Quixote teve de pagar.

"Depois de bem enxutos ao sol, os dois náufragos seguiram o seu caminho, e andaram, andaram, andaram até o encontro duns caçadores. Entre eles vinha uma formosa dama, de falcão em punho, montada em magnífica égua.

"— Sancho — diz Dom Quixote —, vai saudar da minha parte aquela ilustre dama e comunica-lhe que o Cavaleiro dos Leões pede licença para prestar-lhe homenagem. Toma muito sentido no bom desempenho desta missão.

"— Fique descansado, meu amo — respondeu Sancho, metendo as esporas no burrinho. Aproximou-se da dama, apeou, ajoelhou e disse:

"— Eu, ilustríssima e excelentíssima senhora, me chamo Sancho Pança e sou fiel escudeiro do grande Cavaleiro dos Leões, aquele que Vossa Excelência vê acolá. Meu amo e senhor manda dizer que muito deseja servi-la e honrá-la, bem como a essa ave que Vossa Excelência tem no punho; mas antes disso implora de Vossa Excelência a necessária licença.

"— Amável e urbaníssimo escudeiro — respondeu a fidalga —, ergue-te e vai dizer ao teu amo, cujas façanhas já me são conhecidas, que eu e o duque meu esposo teremos imenso prazer em recebê-lo em nosso palácio, a pouca distância daqui.

"Sancho voltou alegríssimo a dar conta da resposta, e Dom Quixote, empertigando-se na sela, tocou na direção da formosa duquesa. Já havia ela trocado umas palavras com o duque, combinando divertirem-se à custa do herói da Mancha. Iriam recebê-lo de acordo com todas as regras da cavalaria.

"Dom Quixote chegou e esperou que o fiel escudeiro viesse segurar-lhe o estribo. Sancho precipita-se para executar aquela cerimônia; nisso, porém, atrapalha-se ao segurar o estribo e vem ao chão. O herói da Mancha, sempre com olhos na duquesa, não dá tento àquilo e desce em falso e também se estatela.

"Furioso com o acidente, Dom Quixote pragueja em voz baixa contra o azarado escudeiro, que naquele momento dois caçadores erguiam do chão — e, coxeando do mau jeito que dera na perna, faz menção de ajoelhar-se ante a ilustre dama. O duque, seu esposo, o detém e o abraça, dizendo:

"— Muita honra me será que o Cavaleiro dos Leões se digne acolher-se em meu palácio.

"— A honra é toda minha — murmurou Dom Quixote educadamente.

"Encaminharam-se todos para o palácio, indo a dama à direita de Dom Quixote. O duque galopara na frente para dar ordens ao seu mordomo. Na porta do palácio apearam todos. Dois criados de libre cobriram os ombros de Dom Quixote com um precioso manto escarlate. As janelas encheram-se de homens e mulheres que lançavam sobre o ilustre visitante rosas desfolhadas.

"— Viva! Viva a flor da cavalaria!

"Caminhando gravemente, Dom Quixote exultava de ser recebido como lera nos livros, e não a pau, como sucedia quase sempre. Foi levado a uma amplíssima sala, ricamente atapetada, onde seis pajens lhe tiraram as armas e a armadura. Depois o conduziram ao aposento a ele destinado. Chegada a hora do jantar, um pajem veio avisá-lo de que a mesa estava posta.

"O duque e a esposa o esperavam de pé. Depois de alguma hesitação o herói aceitou o lugar de honra que a duquesa lhe designava, isto é, à sua direita.

"— A respeito de lugares — disse Sancho — permitam-me Vossas Excelências. que eu conte uma que se passou em minha aldeia. Certo barão, tendo convidado a jantar um pobre lavrador, acenou-lhe que se colocasse à cabeceira da mesa, que é o lugar de honra. O lavrador recusa. O fidalgo, cheio de cólera, agarra-o e o obriga a sentar-se, dizendo: 'Assenta-te, vilão, e fica sabendo que em qualquer lugar em que eu me coloque para contigo, esse será o lugar de honra'.

"Ao ouvir aquele desfecho, o fogo da cólera subiu às faces de Dom Quixote e foi a custo que os donos do palácio contiveram o riso. Nunca em toda a sua vida fora Sancho tão desastrado.

"Finda a refeição, uma bela criada veio ensaboar a barba do herói da Mancha; outra passou-lhe uma toalha pelo pescoço. Depois de bem ensaboada aquela barba rude, a ensaboadeira fingiu que faltava água e retirou-se — e com a cara branca de espuma lá ficou Dom Quixote exposto aos olhares maliciosos dos presentes. Figura mais exótica era impossível.

"— Que belo sistema! — exclamou Sancho.

"— Barba ensaboada depois do jantar! Quando eu tiver minha ilha, hei de adotar lá esse costume. Mas quando me chegará a tal ilha?

"— Não te desesperes, meu caro Sancho — disse o duque. — Eu possuo nove. Dar-te-ei uma.

"— De joelhos, Sancho! — bradou Dom Quixote. — Beija os pés de Suas Excelências, que te honra com tão alto donativo.

"O escudeiro, radiante, atirou-se aos pés do duque. A duquesa fez vir o despenseiro, ao qual ordenou que tratasse Sancho à vela de libra, já que era a flor dos escudeiros e breve estaria governador de um reino.

"Feita a barba, Dom Quixote foi dormir a sesta. Sancho entupiu o estômago e fez uma visita ao amado burrinho. A duquesa retirou-se para os seus cômodos. O duque saiu a dar novas ordens. Queria que durante a estada ali do Cavaleiro dos Leões, todos o tratassem rigorosamente no estilo da cavalaria andante — não como é na realidade, mas como se lê nos livros."

Próxima página






Deixe seu comentário


Copyright © 2015 - Todos os direitos reservados a Conta Contos
Site desenvolvido por: Conta Contos