Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 25


História de Dolorida

Cavalo encantado

 

— Lê nos livros nada! — gritou Emília, lá da sua gaiola. — Tudo isso são potocas. Camelo, quem acredita. Quando sair desta gaiola hei de botar fogo nesse Dom Quixote, como o cura botou fogo nos livros dele. E boto fogo na casa também. No sítio inteiro. No mundo inteiro...

Todos ficaram a olhar para a bonequinha, sem saber o que dizer. O estado de Emília era grave. Não se tratava mais daquela loucurinha divertida que ela sempre mostrou. Emília estava realmente louca, louca furiosa, varridíssima.

— Está demente, vovó — disse Pedrinho. — Está no pontinho de ser internada no hospício.

Ao ouvir essas palavras, Emília teve um novo acesso de cólera. Berrava, esperneava. Deu tantos pontapés nos arames da gaiola que furou um dos pés, deixando escapar uma porção de macela. Vendo isso, rompeu em choro.

Dona Benta condoeu-se do estado da coitadinha.

— Nós erramos, meus filhos, prendendo-a na gaiola do sabiá. Para as perturbações mentais a violência não é remédio. Vamos soltá-la e experimentar outro tratamento. Desça a gaiola, Pedrinho.

O menino desceu a gaiola. Abriu-a. Emília saltou fora, ainda lavada de lágrimas, com o pé furado estendido.

— Meu pé está acabando — dizia ela. — Meu pé está sumindo. Tia Nastácia, venha consertar meu pé...

Tia Nastácia apareceu com agulha, linha e um bocado de macela. Num instante deixou-a perfeitamente restaurada.

— Pronto! Está com o pé ainda mais bem feito e gordinho do que antes. Pode andar.

Emília deu uns passos pela sala e riu-se, feliz.

— Estão vendo? — disse Dona Benta. — Bastou que a tratássemos com humanidade para que a loucura se fosse embora. Venha, Emília, sentar-se no meu colo para ouvir o resto da história. Seja boazinha.

Emília correu para o colo de Dona Benta e a história do cavaleiro da Mancha pôde continuar.

— O duque — disse ela — havia dado ordem ao mordomo para organizar uma farsa assim, assim, e explicou como a queria. O mordomo piscou o olho. Tinha compreendido tudo muito bem. Nisto chegou a hora do jantar, que foi servido no jardim e correu sem novidade até a sobremesa. Inesperadamente um toque de buzina soou, seguido de rufo de tambores. Todos ficaram atentos, à espera de qualquer coisa. A coisa foi o aparecimento de um gigante entrajado de negro, com uma barba que lhe vinha até a cintura. O gigante avançou a passos lentos e ajoelhou-se aos pés do duque, e disse em voz pausada:

"— Excelência, sou Trifaldino, escudeiro da Princesa Trifaldi, a Dolorida. Essa desditosa princesa veio do reino de Candaia até aqui para implorar a Vossa Excelênecia que a informe quanto ao invencível cavaleiro Dom Quixote de Ia Mancha, o único ser humano que poderá salvá-la. Ali na porta do palácio, minha ilustre ama espera licença para entrar.

"— Já de muito tempo — respondeu o duque — sei dos infortúnios da triste Princesa Dolorida. Vai buscá-la e dize-lhe que, por uma feliz coincidência, o incomparável cavaleiro da Mancha é meu hóspede e está aqui.

"O escudeiro retirou-se às arrecuas. Pouco depois apareceu a princesa, acompanhada de doze damas, veladas, vestidas de branco. Três delas sustinham a comprida cauda do vestido de Dolorida, a qual trazia o rosto oculto num véu e caminhava apoiada em seu escudeiro. O duque e a duquesa ergueram-se para recebê-la. Dom Quixote também. Sem tirar o véu, Dolorida dobrou o joelho diante do duque, que a fez erguer-se e sentar-se ao lado da duquesa. E perguntou-lhe o que tinha a dizer.

"A triste princesa disse:

"— Poderosíssimo senhor, e vós, belíssima dama e ilustríssimos ouvintes aqui reunidos: não tardarei a comover-vos com a minha triste história, mas antes de tudo desejava ser informada se o gloriosíssimo cavaleiro Dom Quixote de Ia Mancha e o seu fidelíssimo escudeiro se acham presentes.

"— Sim, madamíssima — bradou Sancho. — Eis ali em pessoa o valentíssimo Dom Quixote de Ia Mancha, e cá o seu fidelíssimo escudeiro Sancho Pança. Estamos os dois prontíssimos para defender em todos os terrenos a vossa dolorosíssima beleza.

"Dom Quixote fez uma curvatura, como a dizer que ele era ele, e prometeu tudo arrostar no serviço da desditosa princesa. Dolorida, emitindo um oh! de feliz surpresa, quis abraçá-lo pelos joelhos. O herói, comovido, obstou-lhe e pediu que contasse as suas desgraças.

"A princesa começou:

"— A Rainha Magonce, viúva do Rei Arquipielo, governava o famoso reino de Candaia, do qual era eu a única herdeira. Vários príncipes se apresentaram para obter minha mão. Entre tantos pretendentes, um só me agradou. Era jovem, gentil, músico e poeta. Encantada com ele, resolvi que nenhum outro seria meu consorte. Casei-me, pois, com Dom Clavijo, contra a vontade de minha mãe, a rainha, que em consequência disso morreu de dor. Logo após o enterro, surge do seu túmulo, montado num cavalo de pau, o famigerado gigante Malambruno, primo de minha mãe e crudelíssimo feiticeiro. Vinha vingá-la. Para isso transformou Dom Clavijo num horrendo crocodilo de bronze, com esta inscrição sobre o pedestal em que se assentava: 'O culpado Clavijo só recobrará sua forma primitiva quando o cavaleiro da Mancha se atrever a desafiar-me para combate'. Em seguida Malambruno voltou-se para mim e com umas palavras mágicas me fez nascer no rosto, e no de minhas damas, compridas barbas de homem. Eis a razão de usarmos véus.

"Para provar o que dizia, a princesa tirou o véu e todas as suas damas fizeram o mesmo. Que linda coleção de barbas negras, ruivas e brancas!

"— Eis — continuou a princesa — o triste estado a que nos reduziu o miserável Malambruno. Suas últimas palavras foram estas: 'Vai em busca de Dom Quixote. Quando o encontrares, mandar-lhe-ei este cavalo de pau, que é mais rápido que o pensamento e se guia por meio duma cavilha de madeira. É a obra-prima do grande mágico Merlin'.

"Mal a princesa acabou de pronunciar essas palavras, eis que surgem quatro selvagens puxando um cavalo de pau.

"— Pronto — dizem eles. — Cá está o famosíssimo ginete Cavilhardo. O paladino que vai bater-se com Malambruno poderá cavalgá-lo, juntamente com o seu escudeiro. Mas para que o espantoso voo desse cavalo não os assuste, é mister que ambos vendem os olhos e assim fiquem até que Cavilhardo relinche — sinal de que findou a jornada.

"Dito isso, os selvagens largaram o animal de pau e desapareceram. Dom Quixote não quis saber de mais nada. Estava a arder pelo início daquela aventura maravilhosa. Monta imediatamente no cavalo, seguido de Sancho, o qual resmunga. Sancho preferia ficar naquela mesa, devorando mais petiscos. Um pajem lhes venda os olhos. Dom Quixote leva a mão à cavilha e a move. Gritos soam:

"— Boa viagem! Boa viagem, valorosíssimo cavaleiro! Deus te guie a ti e ao intrépido Sancho!

"Silêncio em seguida. Julgando-se nas alturas, Dom Quixote observa para Sancho:

"— Que maravilha, amigo! Jamais cavalguei ginete mais firme. Parece imóvel, e no entanto está a voar a mil léguas por hora. Percebo-o pelo deslocamento do ar.

"— E eu também — confirmou Sancho. — Sinto um vento desta banda.

"O duque havia mandado que uns homens com grandes foles ventassem a toda força sobre os imaginários viajantes.

"— Se não me engano — disse Dom Quixote — estamos na região média do ar. Breve atravessaremos a linha do fogo.

"O duque manda que se aproximem deles archotes acesos.

"— Entramos já nessa região, meu senhor — exclamou Sancho. — Estou a arder e com medo de incêndio em minhas barbas. Ufa! Vou desamarrar os olhos.

"— Não faças tal, que seria a nossa desgraça. O reino de Candaia deve estar perto.

"— Deus o permita! — murmurou Sancho. — Minhas nádegas não foram feitas para cavalgar uma dureza destas. Cavilhardo poderá ser um prodígio de velocidade, mas em macieza de sela, prefiro o meu burrinho.

"O duque, a duquesa e os mais riam-se, tapando a boca. Jamais espetáculo tão cômico lhes passara pelos olhos. O fim da aventura foi ainda mais amolecado. Um pajem aproximou-se do cavalo de pau e deitou fogo na mecha que havia junto à cauda. A mecha incendiou a pólvora que recheava o cavalo. Puff! Uma explosão. Dom Quixote caiu dum lado; Sancho, de outro. Grande fumaceira envolveu tudo.

"Enquanto isso, Dolorida e suas damas barbadas desapareciam do jardim, e o duque, a duquesa e os mais se punham em atitude de sono profundo.

"Dom Quixote e o escudeiro ergueram-se tontos, e depois que a fumaça se foi esgarçando viram uma lança cravada no chão com um pergaminho escrito: 'O incomparâvel Dom Quixote de Ia Mancha — dizia o escrito — rematou a aventura da Princesa Dolorida. Malambruno está satisfeito... Não exige mais. Acabou-se o encantamento. Que desapareçam as barbas! Que Dom Clavijo volte à sua forma natural e seja restabelecido no trono, ao lado de sua esposa. Glória eterna ao Cavaleiro dos Leões!'

"Radiante com o feliz desenlace, o herói da Mancha vai despertar o adormecido duque, ao qual diz:

"— Pronto, caríssimo duque! Tudo está findo, conforme o declara o pergaminho da lança.

"O duque abriu os olhos; o mesmo fizeram a duquesa e todos os mais. Erguem-se. Rodeiam os grandes heróis. A duquesa interroga-o sobre a aventura.

"— Ah, senhora! — exclamou o metediço Sancho. — Foi uma viagem espantosa. Atravessamos a região dos ventos e do fogo. Por um triz não se me queimaram as barbas. Senti o cheiro do chamusco; nesse momento levantei uma pontinha da venda dos olhos e vi lá embaixo a terra tão pequena que mais parecia uma noz. Os homens sobre ela eram ainda menores do que grãos de mostarda...

"Todos sorriram e entreolharam-se."A

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