
Escrita por Monteiro Lobato
A narrativa teve de parar nesse ponto por causa da peneirada de pipocas que Tia Nastácia trouxe. Enquanto as comiam, Dona Benta deu uns conselhos à boneca.
— Nós todos aqui, Emília, gostamos muito de você — mas você às vezes se excede e abusa. O sábio na vida é usar a moderação em todas as coisas. Uma loucurinha de vez em quando tem sua graça; mas uma loucura varrida é um desastre — e acaba sempre em,hospício ou gaiola.
Emília explicou-se.
— Sei disso, Dona Benta, mas às vezes me dá comichão de fazer estripulia grossa, como as do cavaleiro da Mancha. Porque eu não acho que isso seja loucura. É apenas revolta contra tanta besteira que há no mundo.
— Lá vem você com as palavras plebeias! Muitas professoras, Emília, criticam esse seu modo desbocado de falar. "Besteira!" Isso não é palavra que uma bonequinha educada pronuncie. Use expressão mais culta. Diga, por exemplo, "tolice".
— E não é a mesma coisa?
— É, mas não ofende o ouvido das pessoas finas. Neste ponto eu estou de pleno acordo com os conselhos que Dom Quixote deu a Sancho, antes de ele assumir o governo da ilha.
"— Amigo Sancho — disse Dom Quixote —, vais ser governador duma ilha e é bom que saibas comportar-te com a dignidade que o posto exige.
"— E que devo fazer para isso, meu amo? — perguntou o escudeiro.
"— Deves fazer e não fazer muitas coisas. Deves cortar as unhas e tomar banho todos os dias. Um governador sem unhas grandes e sempre bem lavadinho inspira mais respeito que um unhudo e sujo. Deves falar com sobriedade, nem demais, nem de menos; e prestar muita atenção no que dizes, nunca usando palavras grosseiras ou plebeias. Deves abandonar esse hábito de ir enfiando um rifão sobre outro, como contas de rosário, venham ou não venham a propósito.
"— Ah, isso há de ser difícil, meu amo, porque tenho na cabeça mais rifões do que os há nos livros. Dá aos pobres que emprestas a Deus. Foi buscar lã e saiu tosquiado. Quem quer vai, quem não quer manda. Os rifões são tantos dentro da minha cachola que quando abro a boca eles se atropelam para sair. E, afinal de contas, não constituem a sabedoria popular?
"— Perfeitamente. São a sabedoria popular, quando bem empregados. Mal empregados, constituem a estupidez popular e tu os empregas tão mal às vezes que com isso só mostras a estupidez que Deus te deu.
"— Muito bem, senhor meu amo. Hei de botar tento nisso, porque Deus ajuda quem cedo madruga, e tantas vezes vai a bilha à fonte que um dia lá fica. Ou, como diz o outro, quem se faz de mel as moscas atraí.
"— Tá, tá, tá! Lá vem a asneirada. Outra coisa em que te deves comedir, Sancho, é no comer. Nada estraga tanto os homens como o excesso de comilança. Além de entorpecer o corpo e produzir a gota e mais doenças, estupidifica completamente o cérebro. Comer pouco é um dos maiores princípios da sabedoria.
"— Está aí uma coisa bem difícil, meu amo. Quando penso em ser governador, o que mais me seduz é justamente a mesa farta que vou ter: os perus assados, as galinholas ensopadas, os ricos peixes de escabeche e o mais, e por cima de tudo aquela vinhaça velha, gostosa. Até lambo os beiços só de pensar nisso...
"— Pois terás de te corrigir dessa gula; do contrário não ficas muito tempo na governança. Os reis gulosos têm reinado curto. Ou estouram, ou são depostos por homens menos excessivos no comer. Aconselho-te a que comas moderadamente; é o melhor meio de durares no governo da ilha.
"Sancho cocou a cabeça.
"Dom Quixote deu-lhe ainda muitos outros conselhos, cada qual mais sábio e digno de ser seguido. Pronto. Estava Sancho preparado para bem dirigir a sua tão esperada ilha.
"Nessa mesma tarde, depois de magnificamente vestido e dotado dum numeroso cortejo, foi o novo governador despedir-se do duque e da duquesa, aos quais beijou a mão. Veio depois abraçar-se aos joelhos de Dom Quixote, que o abençoou. Finalmente pôs-se a caminho, montado num belo macho de ricos arreios, à frente de lustrosa comitiva. Encaminhou-se para um burgo duns mil habitantes, que pertencia ao duque e que lhe disseram ser a ilha da Barataria. Às portas do burgo estavam reunidas as pessoas mais graduadas do lugar, em vestes domingueiras, que vinham receber o novo governador. Romperam toques de sinos. Gritaria. Foguetes.
"Aclamações. Sancho é conduzido triunfalmente para a igreja, na qual foi cantado um Te Deum. Finda a cerimônia, entregaram-lhe as chaves da cidade e aclamaram-no governador perpétuo da ilha da Barataria. Depois da igreja foi levado ao tribunal, onde o mordomo do duque lhe disse:
"— É uso antigo de Barataria que cada novo governador comece julgando duas ou três causas, para que o povo possa avaliar de sua sabedoria e alegrar-se ou afligir-se do novo chefe que vai ter.
"— Venham as causas — murmurou Sancho gravemente, já em tom de juiz.
"Dois homens adiantaram-se. Um falou:
"— Senhor governador, eu sou alfaiate. Este sujeito cá se apresentou em minha oficina com uns metros de pano e perguntou-me se eu lhe poderia fazer um capote.
"— Posso, pois não — respondi.
"Admirado de não haver eu medido o pano antes de responder, o homem julgou que houvesse pano de sobra e indagou:
"— E dois capotes? Podes fazer?
"— Perfeitamente — respondi.
"— E três?
"— Faço três, pois não — e até cinco.
"O homem então encomendou cinco capotes. Eu fiz os cinco capotes e agora ele não quer pagar-me o trabalho. Sancho voltou-se para o segundo sujeito.
"— O que esse alfaiate está dizendo é verdade? — perguntou.
"— Sim, senhor. É a verdade pura — respondeu o homem.
"— Muito bem — murmurou Sancho. — Nesse caso, que apareçam os capotes.
"— Ei-los aqui, senhor governador — disse o alfaiate, mostrando-lhe cinco capotinhos minúsculos.
"A assistência desatou a rir-se do provável embaraço do governador; mas Sancho, sem se atrapalhar, deu a seguinte sentença:
"— O freguês que perca o pano; o alfaiate que perca o feitio; os capotinhos que sejam divididos pelos presos da cadeia — e pronto.
"Todos se admiraram daquela sabedoria.
"Em seguida apresentaram-se dois velhos. Um deles disse:
"— Senhor, eu emprestei dez escudos de ouro a este homem sem exigir recibo, supondo que fosse pessoa séria. Agora está a alegar que já me pagou a dívida, o que é falso.
"— Que me diz a isto? — perguntou Sancho ao devedor.
"— Digo que paguei os dez escudos e estou pronto para jurar.
"— Então, jure.
"O devedor, que estava com um bengalão, pediu ao credor que o segurasse, e só depois disso jurou, nestes termos:
"— Juro por tudo o,que há de mais sagrado que entreguei ao meu credor os dez escudos de ouro que ele me deu de empréstimo. — Disse e apressou-se em reaver a sua bengala.
"Sancho ficou uns instantes pensativo, enquanto a assistência se entreolhava, certa de que dessa feita o governador iria embaraçar-se no julgamento. Mas Sancho veio com uma solução inesperada. Voltando-se para o velho que acabava de jurar ordenou-lhe:
"— Entregue esse bengalão ao outro.
"O velho cumpriu a ordem, muito admirado. Sancho, então, disse ao outro:
"— Quebre essa bengala ao joelho e veja o que tem dentro.
"O credor assim o fez e ao partir a bengala viu saltarem de dentro os dez escudos de ouro.
"— Pronto — exclamou Sancho. — Está julgado o caso. Leve os seus escudos, e este devedor patife que vá para a cadeia por ter tentado enganar-nos a nós todos.
"A assistência ficou assombrada com a esperteza do novo governador, que parecia um verdadeiro Rei Salomão. E, contentíssimos, levaram-no dali para a sala dos banquetes. Na cabeceira da mesa estava um alto personagem vestido de preto, com uma varinha na mão.
"Sancho, a morrer de fome, abancou-se e foi avançando num guisado de carneiro — mas o tal personagem tocou no prato com a varinha e o guisado desapareceu. Sancho leva a mão a uma terrina fumegante. A varinha do homem desce sobre a terrina, que também desaparece.
"— Que raio de diabo é isto? — brada o governador. — É então costume nesta terra comer com os olhos?
"O homem de preto explicou-se.
"— Eu, senhor, tenho a honra de ser o médico dos governadores da ilha, com a missão de zelar-lhes pela saúde, não deixando que comam o que lhes possa fazer mal. O primeiro alimento de que Vossa Senhoria quis servir-se é de penosa digestão e por isso o afastei. O segundo poderia causar em suas ilustres tripas uma perigosa inflamação; por isso também o afastei. O que Vossa Senhoria deve comer é apenas um pedaço de marmelada com uns biscoitinhos.
"Sancho mediu o médico de alto a baixo e fechou a carranca.
"— Como se chama Vossa Mercê?
"— Meu nome é Pedro Rezio de Aguero — respondeu o doutor. — Nasci na aldeia de Tirteafuera, situada entre Carquel e Almodovar Del Campo. Formei-me em medicina pela universidade de Ossuna.
"— Pois, Senhor Pedro Rezio de Aguero — brada Sancho —, ponha-se já daqui para fora antes que eu o mande pendurar duma forca. Já!...
"O médico safou-se e Sancho então comeu, comeu como nunca em toda a sua vida de comilão.
"Durante a sobremesa chegou uma carta do duque. Dizia o seguinte: 'Acautele-se, senhor governador. Fui informado de que cinco assassinos pretendem assaltar Vossa Senhoria esta noite. Sendo necessário, mandarei socorro. Adeus. Confio na coragem e na prudência de Vossa Senhoria'.
"Sancho leu aquilo e voltou aos pratos, dizendo:
"— Fortifiquemos as nossas posições. Uma fortaleza tanto mais resiste quanto mais bem consolidada — e entupiu-se com as comidas que restavam, até ficar como um chouriço que com uma gotinha mais rebenta."