
Escrita por Monteiro Lobato
— Como percebeu Sancho que as moedas estavam dentro da bengala, vovó? — perguntou a menina.
— Ele era maroto e os marotos pescam muito bem a maroteira dos outros — disse Dona Benta. — Quando viu o devedor entregar a bengala ao credor antes de fazer o juramento, e depois de feito o juramento agarrá-la de novo com certa avidez, desconfiou que ali havia trapaça. E deu certo.
— Mas então, vovó, esse Sancho não era nada tolo — disse Pedrinho.
— Era e não era, meu filho. Há no mundo muita gente como Sancho. Ele tinha o sólido bom senso dos homens do povo e todas as qualidades e defeitos do homem do povo, isto é, do homem natural, sem estudos, sem cultura outra além da que recebe do contato com seus semelhantes. Já em Dom Quixote vemos o contrário. Possuía alta cultura. Tinha todas as qualidades nobres e generosas que uma criatura humana pode ter — apenas transtornadas em seu equilíbrio. Quando vocês lerem a história de Dom Quixote como Cervantes a escreveu, convencer-se-ão de que o fidalgo da Mancha era um homem de alto engenho e muitas luzes, embora dementado pela mania de andança. Podemos até dizer que esses dois homens representam a humanidade. Sancho é a matéria. Dom Quixote, o espírito. E como um não pode existir sem o outro, vinha daí a ligação, a amizade, a inseparabilidade do cavaleiro da Mancha e do seu escudeiro. Completavam-se.
— Eu me sinto muito do jeito de Dom Quixote e nada do jeito de Sancho — confessou Emília. — Tudo quanto Dom Quixote faz eu acho certíssimo.
— É que você pertence ao tipo superior, Emília. Sancho representa o tipo inferior da humanidade — o realista, o terra-a-terra. Dom Quixote é o idealista, o sonhador. Um é a barriga; outro é o cérebro. Mas as coisas do mundo só andam quando os dois tipos se ligam. Um nada faz sem o outro.
— Continue a história, vovó — pediu Narizinho. Dona Benta continuou.
— O mordomo do palácio do governador — disse ela — veio avisar Sua Excelência Dom Sancho que a ceia o esperava — e que nela não apareceria o Doutor Pedro Rezio de Aguero.
"— Ótimo! — exclamou Sancho. — Eu gosto de trabalhar, como todos estão vendo; mas só trabalho bem quando o bucho está cheio de coisas sólidas, abundantemente regadas do suco da uva. Vazio, não funciono.
"E foi para a mesa. Ceou regaladamente, com arrotos de bem-aventurança. Lá pelo fim da refeição um oficial veio convidá-lo para uma volta pela ilha. O governador acedeu. Saíram juntos. Ao passarem por certa rua, um soldado apresentou-lhe um mancebo que fugira ao avistá-lo. Aquilo parecera suspeito ao guarda.
"— Por que fugiu, rapaz? — interpelou Sancho.
"— Para não ser preso — foi a resposta.
"— Muito bem. Mas onde ia a estas horas da noite?
"— Tinha saído a tomar ar — respondeu o moço. — Gosto de ser levado pelas brisas noturnas.
"— Ótimo. A principal brisa desta cidade sou eu — disse Sancho — e sopro-te na direção da cadeia. Levem-no.
"Todos se riram da agudeza do governador.
"Durante sete dias Sancho regeu aquele reino com alto saber, fazendo leis que até hoje são observadas e conservam o seu nome: Leis e posturas do grande Governador Sancho Pança.
"Certa noite em que ele descansava da trabalheira diurna, foi sobressaltado por um grande estrondo, seguido de repiques de sinos. A ilha como que se afundava. Sancho senta-se na cama, atento. Soam trombetas. Rufam tambores. Espantado daquilo, levanta-se e, mesmo em fraldas de camisa, abre a porta para o corredor. Um grupo de homens armados avançava com archotes acesos.
"— Às armas! Às armas! Vista-se já, senhor governador! O inimigo acaba de desembarcar. Só o valor de Vossa Excelência poderá salvar-nos.
"— Às armas? — repete Sancho, com voz trêmula. — Mas saibam os senhores que isso de armas não é o meu forte. Dirijam-se ao valente paladino, meu amo, e asseguro-lhes que, enquanto o diabo esfrega o olho, ele dá cabo de quantos inimigos houver, inda que sejam um milhão de gigantes.
"— O perigo cresce, senhor! — bradam os homens. — Aqui tem Vossa Excelência armas. Tome-as e defenda a sua vida.
"E assim dizendo arrumam com as armas em cima de Sancho e enfiam-no dentro daquelas cascas de ferro, que atam com correias. Na mão gorducha metem-lhe a lança. O pobre governador fica como uma tartaruga de ferro por fora e banhas trêmulas por dentro.
"— Marchemos, governador! — gritam os homens. — Ao inimigo! Vamos!...
"Sancho quer dar um passo; perde o equilíbrio e estatela-se no chão. Nisto os archotes se extinguem. Trevas profundas. Dentro do escuro trava-se a peleja. Golpes de cá, golpes de lá, espaldeiradas, gritos de dor e cólera, elmos que retinem no chão ao cair — uma barulhada infernal. Sancho suava e tressuava, apavorado. Se algum daqueles golpes o pega de jeito...
"Em dado momento um vulto lança-se sobre ele e encavalga-o, gritando:
"— Tragam breu derretido e azeite a ferver! Fechem a porta! Levantem tranqueiras! Tudo bem...
"— Bem? Nunca vi tudo tão mal — geme Sancho. — Tomara verme livre desta horrível ilha...
"As vozes aumentam em redor dele.
"— Vitória! Vitória! Apareça o governador para gozar o seu grande triunfo.
"— Como hei de aparecer se nem posso levantar-me? Estou enlatado — responde Sancho. — Arranquem de mim esta ferralhada horrível. E deem-me um trago de vinho.
"Vem o vinho. Desarmam-no. Metem-no na cama — e Sancho não consegue conciliar o sono, tal fora o susto passado. Na manhã seguinte ergue-se tarde. Veste-se lentamente, como quem está absorvido em cismas. Sai do aposento e, seguido dos habituais cortesãos, encaminha-se para a estrebaria, onde dá um beijo no focinho do jumento.
"— Meu bom amigo e companheiro — murmura suspirando —, enquanto vivi contigo, a aproveitar-me do teu lombo e a prestar-te serviços, passei horas, dias e anos muito sossegados. Mas logo que te abandonei para, pela escada da ambição, subir ao trono da grandeza, só aborrecimentos e sustos tenho tido...
"Ia falando e arreando o burrinho. Põe-lhe a sela. Põe-lhe o cabresto, o freio. Por fim, monta e diz aos cortesãos que o rodeavam:
"— Meus senhores, permitam-me que volte à minha liberdade de outrora, pois sem liberdade não há ventura. Quero antes comer tranquilo um pedaço de pão bolorento, do que ser um governador esfaimado pelo médico, contrariado por todos, pisado e cavalgado como fui. Adeus.
"Disse e abalou no trote, deixando os burlões que se divertiam à custa dele desapontados com tamanho gesto e bom senso. Tomou a direção do palácio do duque, mas lá não chegou. O burrinho tropeçou e caiu num profundo buraco. Impossibilitado de sair, lá deixou-se ficar Sancho a esperar pacientemente que o sol nascesse."