Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 28


Dom Quixote em Barcelona

O Cavaleiro da Branca Lua

 

— É uma lástima — disse Dona Benta — eu estar contando só a parte aventuresca da história do cavaleiro da Mancha. Um dia, quando vocês crescerem e tiverem a inteligência mais aberta pela cultura, havemos de ler a obra inteira nesta tradução dos dois viscondes, que é ótima.

— Ótima nada! — berrou Emília. — A gente não percebe metade do que eles dizem. "Adarga antiga!" "Lança em cabido!" Bolas!

— É que está escrita em português que já não é bem o nosso de agora. Hoje usamos a linguagem a mais simplificada possível, como a de Machado de Assis, que é o nosso grande mestre. Os escritores portugueses, que chamamos clássicos, usavam uma forma menos singela, mais cheia de termos próprios, mais rica, mais interpolada...

— Lá vem, lá vem a senhora com palavras difíceis! Interpolada!.

Dona Benta riu-se.

— Sabem o que é? Nada mais, nada menos que a combinação de várias orações na mesma frase. Vou dar um caso.

Dona Benta abriu o livrão e procurou uma frase que servisse de exemplo. Achou esta, do episódio dos galeotes algemados...

"... tamanha foi a revolta, que os guardas, já para terem mãos nos galeotes, que se estavam soltando, já para se avirem com Dom Quixote que os acometia a eles, não puderam fazer coisa que proveitosa lhes fosse".

— Que embrulho! — berrou Emília. — Que "interpolação" levada da breca...

Dona Benta explicou:

— Neste período há muitos verbos e portanto muitas orações, umas interpoladas com outras, isto é, metidas entre as outras.

— Um picadinho de orações, uma salada — disse Emília. — Eu gosto dos períodos simples, que a gente engole e entende sem o menor esforço. Esses assim até dão dor de cabeça. São charadas.

— Para vocês, meus filhos, que estão começando a lidar com a língua. Já eu entendo o período perfeitamente, sem nenhuma dificuldade.

— E como se diz isso em língua moderna, simplificada.

— Poderá ser dito assim: "Tamanha foi a revolta dos galeotes que os guardas nada puderam fazer diante daquele duplo embaraço: os prisioneiros a se soltarem das algemas e Dom Quixote a atacá-los com a espada".

— Bom — disse Narizinho. — Isso já está mais claro.

— E não dá dor de cabeça — acrescentou Pedrinho. — Eu poderei admirar muito os escritores clássicos; mas, para ler, quero os modernos, como esse tal Machado de Assis que a senhora tanto gaba.

— Bem, bem — disse Dona Benta. — Continuemos a história do cavaleiro da Mancha, que já vai perto do fim. Dom Quixote, depois que Sancho partiu para governar a ilha, começou a sentir muita falta nele, e a se aborrecer com as contínuas festas do palácio. Por fim deliberou ir-se embora. Estava com saudades da aventurosa vida ao ar livre. Despediu-se do duque e da duquesa, montou no velho Rocinante e lá se foi sem destino certo. Por casualidade passou rente à furna onde se afundara Sancho. Ouviu gemidos lá dentro. Parou para escutar. Uma voz dizia:

"— Não haverá aí por cima alguma alma caridosa que se compadeça dum infeliz encovado vivo?

"— Parece a voz de Sancho! — pensou consigo o cavaleiro e para certificar-se gritou: — Quem se queixa aí no buraco?

"— Quem há de ser senão Sancho Pança, o governador da ilha da Barataria, antes disso o fiel escudeiro do famoso e saudoso cavaleiro andante Dom Quixote de Ia Mancha?

"E para dar um atestado de que aquilo era assim mesmo, fez o burrinho dar um zurro.

"— Eles mesmos! — murmurou Dom Quixote. — O zurro e a voz humana são sons meus conhecidos. Espera, amigo Sancho. Vou num galope ao palácio buscar ajuda.

"Dom Quixote voltou ao palácio e contou ao duque o desastre sofrido pelo seu fiel escudeiro. O duque espantou-se de que Sancho houvesse abandonado o governo da ilha e ordenou aos seus criados que levassem escadas e cordas para tirá-lo do abismo. O que foi feito. Quando o pobre Sancho se viu desenterrado, seu primeiro gesto foi correr ao palácio a fim de agradecer aos seus bons salvadores. Defrontando-se com o duque, fez uma reverência e disse:

"— Vossa Excelência deu-me, sem que eu o merecesse, o governo da ilha da Barataria, que governei o melhor que pude. Súbito, o inimigo assaltou-nos. Houve o diabo. Por fim asseguraram-me que eu havia vencido. Mas, vencedor ou vencido, vi que não fui fadado para tais alturas. E antes que as alturas me abandonassem, abandonei-as eu. Nu entrei na ilha e nu a deixei, eu e o meu burrinho. Mas ao vir para cá, no escuro da noite, afundei numa cova, e lá estaria ainda se não fosse o meu bom amo e senhor Dom Quixote. Eis tudo, senhor.

"O duque lamentou que Sancho houvesse abandonado um cargo que vinha desempenhando tão bem, e prometeu arranjar-lhe outra coisa. Por sua parte a duquesa mandou que o mordomo o regalasse com bons petiscos — o melhor meio de consolá-lo em suas desgraças.

"Contente de haver recuperado o seu fiel escudeiro, Dom Quixote deu-se pressa em pôr-se a caminho. Despediu-se novamente do duque, havendo troca recíproca das maiores gentilezas. A duquesa mandou dar a Sancho uma bolsa de duzentos escudos de ouro, que ele beijou com lágrimas nos olhos e meteu no seio.

"Bem enlatado dentro da sua armadura e repimpado em cima dos ossos de Rocinante, com Sancho atrás no seu burrinho, Dom Quixote entreparou na frente do palácio. As janelas estavam cheias de fidalgos e damas. Na principal apareciam o duque e a duquesa. Dom Quixote fez-lhes um gentil cumprimento com a lança e partiu, saudado pelos lenços que se agitavam. Tomou o rumo de Barcelona, para onde o duque mandara cartas aos amigos, avisando-os da breve chegada do herói.

"Trotam, trotam os dois, e por fim chegam à grande cidade justamente no dia de São João. Tudo lá mostrava o alvoroço da festa. Cavaleiros ricamente ataviados passavam a galope pelas ruas. Descargas de mosquetaria alternavam-se com o toque de tambores. Os canhões dos navios davam salvas.

"Dom Quixote e Sancho maravilharam-se de tudo, e mais ainda que um grupo de cavaleiros os abordasse com estas palavras:

"— Bem-vindo seja o luminoso farol da cavalaria andante, o valoroso, invencível e inimitável Dom Quixote de Ia Mancha!

"Dom Quixote não teve tempo de responder. Foi levado em triunfo à residência de Dom Antônio Moreno, amigo particular do duque, onde teve o mesmo alto tratamento que recebera na corte ducal. Sancho não cabia em si de contente, pois que a fartura de comida era ali a mesma que em casa de Dom Diogo e do palácio do duque. Comeu, comeu, comeu de arrebentar.

"Seis dias se passaram naquelas festas, com passeios contínuos. Num desses passeios, Dom Quixote, sempre montado no poderosíssimo Rocinante e seguido de Dom Antônio, encontrou-se na praia com um cavaleiro armado da cabeça aos pés, montado num soberbo ginete. O cavaleiro para e diz em tom arrogante:

"— Ilustre e valoroso Dom Quixote de Ia Mancha, saiba que tem diante de si o Cavaleiro da Branca Lua, cujas memoráveis façanhas correm mundo. Venho medir minhas forças comas de Vossa Senhoria; e como tenho absoluta certeza de minha superioridade aconselho a Vossa Senhoria a render-se à discrição.

"Surpreso de tanta arrogância, Dom Quixote replica:

"— Rio-me da tua arrogância, cavaleiro, e da tua ingenuidade em supor que o paladino da Mancha possa render-se sem luta. Batamo-nos. Dize as tuas condições.

"— Ei-las — respondeu o Branca Lua. — Se eu vencer, Vossa Senhoria se retirará para sua casa, na aldeia, e ficará cinco anos sem cingir a espada. Se Vossa Senhoria me vencer, ficará com minhas armas, meu cavalo e minha glória.

"Dom Quixote aceitou as condições e tomou posição de combate. O Branca Lua fez o mesmo. Súbito, atiraram-se um contra o outro. O cavalo de Branca Lua era muito mais vigoroso que Rocinante, de modo que no embate peito a peito o botou logo por terra, com Dom Quixote e tudo. Estava decidida a batalha. Branca Lua apoiou a ponta da lança no gasnete do adversário caído, gritando:

"— Morto estás, se não confirmas as condições estabelecidas.

"— Confirmo-as — murmurou o herói da Mancha, num suspiro.

"O vencedor afastou-se no galope. Sancho e mais amigos ergueram Dom Quixote e o colocaram numa padiola — e lá seguiu para a residência de Dom Antônio o lúgubre cortejo.

"Tudo aquilo fora um arranjo do bacharel Simão Carrasco para salvar Dom Quixote e restituí-lo à família. Carrasco se disfarçara em Cavaleiro da Branca Lua, obtendo de Dom Antônio aquele excelente corcel, na certeza de que com o primeiro tranco daria com o matungo de Dom Quixote por terra. E tudo correu do modo previsto.

"Moído da queda e mais ainda pela derrota moral, Dom Quixote ficou seis dias de cama em tratamento. No sétimo, levantou-se. Estava em condições de retomar a viagem. Despediu-se de Dom Antônio, cavalgou Rocinante e, de cabeça baixa, numa grandíssima tristeza, tomou rumo de sua casa. Pelo caminho não lhe saiu da boca uma só palavra.

"Na aldeia foi recebido pelo cura, pelo barbeiro e pelo bacharel Carrasco, que o abraçaram afetuosamente. Ao entrar em casa a sobrinha e a ama lançaram-se a ele, radiantes de felicidade.

"Essas expansões de carinho, porém, não lhe serviam de consolo. De sua cabeça não saía, nem por um momento, a lembrança da fatal derrota. E de tanto mói e remói, adoeceu."

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