
Escrita por Monteiro Lobato
— Coitado de Dom Quixote! — exclamou Narizinho. — Esse tal Cavaleiro da Branca Lua não passava dum grande malvado. E o duque e todos os seus amigos não passavam duns perversos sem coração.
— Realmente, minha filha, dói-me assistir ao fim do famoso cavaleiro da Mancha, sobretudo quando lhe lemos a história completa, do modo pelo qual Cervantes a escreveu. Mas tudo na vida tem que ter um fim. Cervantes não podia conservar Dom Quixote vivo a vida inteira.
— Por que não? — objetou Emília. — Eu, se fosse o Saavedra com dois aa, não o mataria nunca. Deixá-lo-ia como uma espécie de judeu errante: eternamente vivo. Para que matá-lo? Para que deixá-lo morrer? Não acho graça nenhuma nisso...
— É que todos nós morremos, Emília. Não tinha propósito Cervantes não pôr termo à vida do seu personagem.
— Tinha sim — insistiu Emília. — O fato de toda gente morrer não é razão para que ele morresse. Podia ficar para semente, como o judeu errante. Ser uma exceção. A senhora não vive dizendo que todas as regras têm exceção?
— Mas as leis da natureza não têm exceções, Emília — e morrer é uma lei da natureza.
— Bolas para a natureza! — gritou a boneca. — Para mim Dom Quixote não há de morrer. Não quero ouvir o resto da história. Até logo. Vou brincar com o Quindim e levo Dom Quixote bem vivinho dentro da minha cabeça. Não sou urubu. Não gosto de carniça. Até logo! — e saiu da sala correndo.
Dona Benta ficou uns instantes pensativa.
— Conte logo a morte dele, vovó — pediu Narizinho.— Tia Nastácia não tarda com os pinhões; hoje é pinhão.
— Pois morreu, minha filha. Ficou vários dias de cama, cada vez mais magro, seco e amarelo. O vigário, o barbeiro e o bacharel vinham visitá-lo todos os dias.
— E Sancho?
— Também. O pobre Sancho estava numa aflição nunca vista. A sua amizade pelo cavaleiro era profunda. Lá pelo oitavo dia, o médico o desenganou. Disse que estava por horas. Percebendo que era assim mesmo, Dom Quixote reuniu todos os seus amigos e falou:
"— Meus caros, já não sou Dom Quixote de la Mancha. Voltei a ser aquele antigo Alonso Quijana, que o povo desta aldeia havia cognominado o Bom. Já não sou imitador desses cavaleiros andantes que os livros descrevem e que a loucura me levou a tomar como modelos. Sou o vosso velho amigo, um homem que perdeu a razão e só no fim da vida a recobrou.
"Todos se entreolharam com surpresa e dor. O moribundo prosseguiu:
"— Sinto-me cada vez mais fraco. Chamai o tabelião para anotar minhas últimas vontades. Escreve — disse-lhe Dom Quixote. — Deixo a Sancho, meu fiel amigo, duzentos escudos de ouro. À minha sobrinha deixo tudo mais quanto possuo, com a condição de sempre ter consigo esta boa ama, que cuidou de mim a vida toda. E também há de presentear o senhor padre, mestre Nicolau e o amigo Carrasco, ao qual nomeio meu executor testamentário.
"Fechou os olhos e morreu.
"A choradeira foi imensa. Nunca se derramaram tantas lágrimas naquela aldeia. O bacharel Carrasco compôs os seguintes versos para o seu túmulo:
"Aqui jaz o fidalgo raro
Que a tanto extremo chegou
De valente, que o preclaro
Seu nome eterno ficou"'
— E Sancho, vovó? — quis saber Narizinho.
— Sancho, depois de muito chorar, voltou à sua vida antiga de camponês. Viveu o resto da vida na abastança, graças ao legado de Dom Quixote e aos muitos presentes recebidos da duquesa.
— E que mais?
— Só.
Por várias vezes Narizinho tentou contar a Emília a morte do cavaleiro da Mancha. Emília tapava os ouvidos.
— Morreu, nada! — dizia ela. — Como morreu, se Dom Quixote é imortal?
Dona Benta ouvia aquilo e ficava pensativa...
Fim
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